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Finanças do Casal

Casal endividado: o passo a passo pra sair da dívida sem um culpar o outro

Casal endividado precisa de conta clara antes de plano. Veja como mapear a dívida junto, montar 3 cenários e sair sem transformar dinheiro em briga.

Felipe Marin06 de julho de 20266 min de leitura
Elderly couple reviewing documents at home

Um casal me mandou a conta deles no mês passado. Juntos ganhavam R$ 7.400 e deviam R$ 22.000 espalhados em cinco lugares: dois cartões, um cheque especial, o parcelamento de um sofá e um empréstimo que um dos dois fez sozinho antes de morarem juntos. O rotativo do cartão rodava a 14% ao mês. Ninguém sabia dizer, de cabeça, quanto saía de juros por mês. Esse é o problema real de casal endividado: não é falta de vontade de pagar, é falta de mapa.

Quando a dívida vira um número vago que ninguém fecha, ela também vira munição. Um acha que o outro gastou demais. O outro lembra da viagem que não devia ter parcelado. E o dinheiro, que era pra ser resolvido, vira briga. Antes de qualquer plano de saída, o casal precisa fazer uma coisa chata e libertadora ao mesmo tempo: colocar tudo na mesa.

Primeiro passo: parar de estimar e escrever a dívida inteira

O erro mais comum é o casal negociar antes de saber o tamanho do buraco. "A gente deve uns 15 mil" não é um número, é um chute. E chute não paga juro.

Sente os dois juntos e liste cada dívida com quatro colunas: quanto falta, a taxa de juros ao mês, o valor da parcela e a data de vencimento. Fica assim, na prática:

  • Cartão A: falta R$ 6.800, rotativo a 14% ao mês, sem parcela fixa, vence dia 10
  • Cartão B: falta R$ 4.200 parcelado em 8x de R$ 620, juro já embutido, vence dia 15
  • Cheque especial: R$ 2.500 usados, cerca de 8% ao mês, vence quando entrar salário
  • Sofá: R$ 3.000 em 6x de R$ 500, sem juros, vence dia 20
  • Empréstimo pessoal: R$ 5.500, parcela de R$ 480, vence dia 5

Só de escrever isso, uma verdade aparece: nem toda dívida é igual. O sofá em 6x sem juros não é urgência nenhuma. O rotativo a 14% ao mês, sim. Em um ano, 14% ao mês vira mais de 380% de juros acumulado. É essa a dívida que come o casal enquanto vocês discutem quem comprou o quê.

Segundo passo: separar o que é urgente do que só parece

Depois da lista, reordene por taxa de juros, não por valor. A regra que sempre repito: paga primeiro o que cobra mais caro, não o que é maior. Uma dívida de R$ 2.500 no cheque especial a 8% ao mês machuca mais rápido que uma de R$ 5.500 num empréstimo a 2% ao mês.

No nosso exemplo, a fila de prioridade fica: cartão A no rotativo, depois cheque especial, depois cartão B parcelado, depois empréstimo, e o sofá por último. O objetivo dos próximos meses é matar o rotativo e o cheque especial, que são os dois que sangram. Enquanto eles existirem, qualquer sobra do casal está sendo drenada por juros antes de virar progresso.

Dívida cara não espera vocês decidirem de quem foi a culpa. Ela rende contra vocês todo dia, junto.

Terceiro passo: os três cenários de saída

Com a dívida mapeada, dá pra fazer a conta de verdade. Suponha que, depois de pagar aluguel, mercado e contas fixas, sobrem R$ 900 por mês pra atacar a dívida. Aqui entram os três cenários que eu sempre monto com o casal.

Cenário pessimista. A renda não muda e nada é renegociado. Com R$ 900 por mês jogados na dívida mais cara primeiro, o casal leva perto de dois anos pra zerar tudo, e paga uma montanha de juros no caminho por causa do rotativo. Funciona, mas é lento e desgastante.

Cenário realista. O casal liga pro banco e troca o rotativo de 14% por um parcelamento negociado a algo em torno de 4% ao mês. Só essa troca já muda o jogo, porque para a hemorragia da dívida mais cara. Mantendo os R$ 900 mensais, a saída cai pra algo entre 14 e 18 meses. Renegociar não é fraqueza, é a jogada mais lucrativa que o casal endividado tem à mão.

Cenário otimista. Além de renegociar, o casal direciona o 13º, uma restituição ou um bônus inteiro pra abater a dívida cara de uma vez. Um aporte único de R$ 3.000 no rotativo, no começo do processo, encurta meses de sofrimento porque tira o valor de onde o juro é maior. Nesse cenário, a saída vem em cerca de um ano.

Repare que a diferença entre os cenários não é ganhar mais. É ordem de pagamento e renegociação. O casal que entende isso para de brigar sobre gasto passado e começa a decidir sobre a próxima parcela.

Quarto passo: a dívida é de um só ou dos dois?

Essa é a conversa que ninguém quer ter, mas que evita ressentimento lá na frente. Se um dos dois entrou na relação com um empréstimo que era só dele, vale decidir junto como tratar isso. Não existe resposta certa. Tem casal que assume tudo como caixa único porque a vida já é compartilhada. Tem casal que prefere que cada um cuide da dívida que trouxe, e usa o caixa comum só pro que construíram juntos.

O que não pode é ficar no não dito. Uma dívida individual tratada em silêncio como se fosse do casal, ou o contrário, é o tipo de coisa que explode seis meses depois numa discussão que parecia ser sobre outra coisa. Coloquem a regra em voz alta e registrem: "a dívida X é individual, a dívida Y a gente paga junto". Combinado escrito não vira memória distorcida.

Onde o app entra nisso

Toda essa conta dá pra fazer num caderno. O problema é manter viva por dezoito meses sem os dois perderem a visão. Foi pra isso que passei a registrar as parcelas e as contas do casal no Nós Dois. Em Finanças, cada dívida entra como despesa por pessoa, com a timeline das parcelas mês a mês, então dá pra ver quando o cartão B termina e libera R$ 620 pra jogar na próxima. Em Contas a pagar, cada vencimento tem status de pago, atrasado ou pulado, o que evita o clássico atraso por achar que o outro já tinha resolvido.

A calculadora financeira ajuda antes de assumir qualquer parcela nova: ela projeta seis meses à frente considerando o que já está em aberto, então o casal vê se cabe ou se vai empurrar a saída da dívida pra mais longe. E a aba de Metas serve pra transformar "quitar tudo" num alvo com valor e aporte mensal, que é bem mais fácil de perseguir a dois do que uma promessa vaga.

O que fazer hoje à noite

Antes de dormir, peguem uma folha ou o bloco de notas do celular e escrevam as cinco colunas de cada dívida: nome, quanto falta, taxa ao mês, parcela e vencimento. Só isso, sem plano ainda. Leva uns quinze minutos e é o único jeito de parar de chutar o tamanho do buraco. Amanhã vocês reordenam por juros e escolhem qual matar primeiro. O plano nasce do mapa, nunca antes dele.

Uma observação: renegociação de dívida, juros e portabilidade têm detalhes que mudam de banco pra banco. Se a situação estiver apertada de verdade, vale conversar com um profissional de finanças ou com o próprio banco antes de fechar qualquer acordo.

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