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Decisões Grandes

Herança de imóvel no casal: vender, alugar ou morar ali, a conta que decide

Herança de imóvel caiu no colo do casal? Veja a conta de vender, alugar ou morar ali antes de decidir juntos.

Felipe Marin29 de outubro de 20265 min de leitura
Couple talking on a staircase

Um casal que recebe um apartamento de herança costuma pensar que ganhou um problema resolvido. Na prática, ganhou uma decisão de três caminhos, cada um com um número diferente embaixo: vender e usar o dinheiro, alugar e guardar a renda, ou se mudar pra lá e deixar de pagar aluguel. Fizemos a conta dos três cenários pra um casal com renda de R$ 9.000,00 por mês, e o resultado não é óbvio.

A premissa errada de quem recebe um imóvel de herança

O erro mais comum é tratar a herança como "dinheiro de bônus" e decidir rápido, no calor da emoção do inventário. Mas um imóvel parado custa dinheiro todo mês, mesmo vazio: condomínio, IPTU, manutenção. E vender errado, sem entender o processo de inventário e o imposto que incide sobre a transmissão (o ITCMD, que varia por estado), pode custar mais caro do que parece. Esse ponto fiscal e jurídico muda de estado pra estado e de caso pra caso, então vale consultar um advogado ou contador antes de qualquer decisão, principalmente se o inventário ainda não foi fechado.

O que dá pra decidir em casal, sem depender de profissional, é a parte financeira: o que cada caminho rende ou custa pro orçamento dos dois a partir do momento em que o imóvel está liberado.

A conta antes de qualquer decisão

Pegamos um caso ilustrativo: um apartamento avaliado em R$ 420.000,00, de 2 quartos, num bairro de classe média, que ficou pro casal depois do inventário de um dos pais. O casal mora de aluguel, paga R$ 2.200,00 por mês, e tem renda conjunta de R$ 9.000,00.

Antes de escolher entre vender, alugar ou morar, dá pra separar os custos fixos que o imóvel gera independente do que o casal decidir: condomínio de R$ 480,00, IPTU anual de R$ 2.400,00 (ou R$ 200,00 por mês diluído) e uma reserva de manutenção de cerca de R$ 150,00 por mês pra imprevisto. Isso dá R$ 830,00 por mês só de imóvel parado, antes de qualquer renda entrar.

Cenário 1: vender e usar o dinheiro

Vendendo por R$ 420.000,00 e descontando corretagem (em torno de 6%, ou R$ 25.200,00) e custos de documentação, o casal fica com algo perto de R$ 390.000,00 líquidos, sem contar o que já foi gasto no inventário. Esse valor, aplicado num investimento conservador de renda fixa, pode gerar em torno de R$ 3.000,00 a R$ 3.500,00 por mês em juros, dependendo da taxa do momento. É mais do que o aluguel que pagam hoje, com a vantagem de manter o dinheiro líquido pra outras metas, como entrada de imóvel próprio ou reserva de emergência.

O risco desse cenário é o mais simples de todos: dinheiro líquido é fácil de gastar. Casal que vende um imóvel sem ter uma meta clara pro valor costuma ver a reserva derreter em reforma, viagem e parcelamento em menos de dois anos.

Cenário 2: alugar e guardar a renda

Um apartamento de R$ 420.000,00 nessa faixa costuma alugar por algo entre R$ 1.800,00 e R$ 2.300,00 por mês, dependendo da região. Usando R$ 2.100,00 como referência e descontando os R$ 830,00 de custos fixos do imóvel (quando não repassados ao inquilino), a renda líquida fica em R$ 1.270,00 por mês. É menos do que o rendimento do cenário de venda, e ainda carrega o risco de vacância (meses sem inquilino) e de inadimplência.

Esse caminho faz mais sentido quando o casal quer manter o patrimônio físico, por exemplo pra repassar no futuro, ou quando não tem pressa nem meta definida pro dinheiro da venda. A regra prática: se a renda líquida do aluguel não cobre pelo menos o que vocês pagariam de prestação num financiamento equivalente, o aluguel está mal precificado ou o imóvel não compensa manter alugado.

Cenário 3: morar no imóvel herdado

Esse é o cenário que parece mais óbvio e, por isso mesmo, costuma ser decidido sem conta nenhuma. O casal deixa de pagar R$ 2.200,00 de aluguel, mas passa a pagar os R$ 830,00 de custos fixos do imóvel (que no aluguel às vezes já estavam incluídos ou divididos). A diferença parece boa: R$ 1.370,00 de sobra por mês.

O ponto que o casal esquece de colocar na conta é o custo de oportunidade: aqueles R$ 420.000,00 parados num imóvel que não vão vender nem alugar deixam de existir como opção pra qualquer outra meta do casal, do imóvel próprio dos sonhos até a reserva de emergência. Morar ali só faz sentido financeiro de verdade se o imóvel já é o tipo de lugar onde o casal pretendia morar de qualquer jeito, no bairro certo, no tamanho certo. Se é "serve por enquanto", a conta de sobra mensal esconde um custo invisível que pesa mais a longo prazo.

A regra prática pra decidir

Não existe resposta única, mas existe uma pergunta que ajuda o casal a filtrar os três cenários: o imóvel resolve um problema que vocês já tinham, ou só criou uma opção nova? Se o imóvel está no bairro onde vocês já queriam morar, mora-se. Se o casal já tinha uma meta de investimento ou entrada de imóvel próprio parada por falta de capital, vende-se e aporta direto na meta. Se nenhuma das duas situações bate e o casal quer manter o patrimônio por segurança, aluga-se, mas com a consciência de que o rendimento líquido vai ser menor que o de uma venda bem aplicada.

O erro que mais custa caro não é escolher o cenário "errado", porque os três são defensáveis dependendo do contexto. É decidir sem registrar os números e sem alinhar o que cada um espera do dinheiro ou do imóvel. Herança costuma vir com peso emocional, e decisão emocional sem conta na mesa é terreno fértil pra ressentimento dois anos depois, quando um dos dois lembrar "eu não queria vender" ou "eu avisei que ia dar trabalho alugar".

O que fazer hoje à noite

Sentem os dois e escrevam, cada um separadamente, qual cenário prefere e por quê, antes de debater. Depois comparem as respostas. Se baterem, vocês já sabem o caminho. Se não baterem, o ponto de atrito geralmente não é o imóvel, é o que cada um espera fazer com o dinheiro ou com a segurança que ele representa, e essa é a conversa que vale a pena ter antes de assinar qualquer papel.

Depois de decidir, vale registrar a decisão e os números que levaram até ela, assim nenhum dos dois reescreve a história lá na frente. No Nós Dois, o módulo Decisões guarda exatamente isso: o que foi decidido, por que e com a participação dos dois, pra consultar quando a memória falhar.

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