Orçamento do casal: quanto cabe por mês quando se mora a dois (a conta em três cenários)
Orçamento do casal com a conta inteira: R$ 9.000 de renda, fixos, parcelas e variáveis em três cenários, e a sobra que vale prometer todo mês.
Um casal ganha R$ 9.000 por mês juntos. Depois de aluguel, plano de saúde, parcela do sofá e mercado, quanto sobra? Quando faço essa pergunta, a resposta costuma vir rápida e otimista: “uns R$ 2.000, acho”. Fizemos a conta inteira, item por item, e ela dá R$ 1.345 num mês normal e R$ 831 num mês ruim. A diferença entre o chute e o número decide se o mês fecha no azul ou no limite do cartão.
Morar a dois multiplica as fontes de gasto e ninguém enxerga o total. Um paga o aluguel, o outro paga a internet e o mercado, e a fatura chega com parcelas que os dois esqueceram. Vamos quebrar em passos pra descobrir quanto cabe por mês.
Por que a regra dos percentuais não fecha a conta do casal
O erro mais comum é pegar uma regra pronta, como a 50/30/20 (50% da renda pra necessidades, 30% pra desejos e 20% pra guardar), e tentar encaixar o casal nela. No nosso exemplo, aluguel, condomínio, contas da casa, plano de saúde, transporte e mercado somam R$ 5.620, ou 62,4% da renda. Isso sem farmácia e sem nenhuma parcela de cartão. A regra pede 50%, o casal já está em 62,4% só de necessidade, e ninguém ali gasta mal.
O problema é que a regra divide o dinheiro por importância, e o mês não funciona assim. O que decide se a conta fecha é outra pergunta: quanto desse dinheiro dá pra mudar este mês? Aluguel não dá. Parcela do sofá também não. Delivery dá. Por isso eu separo o orçamento em três grupos: fixos, parcelas e variáveis.
A conta inteira: renda, fixos, parcelas e variáveis
A renda do casal do exemplo é de R$ 9.000,00: R$ 5.400,00 de um e R$ 3.600,00 do outro. Agora os gastos, grupo por grupo.
Fixos são os gastos que chegam todo mês com valor previsível. Luz e água variam um pouco, então uso a média dos últimos três meses.
- Aluguel: R$ 2.200,00
- Condomínio: R$ 450,00
- Luz: R$ 190,00
- Internet e celulares: R$ 250,00
- Água e gás: R$ 130,00
- Plano de saúde: R$ 580,00
- Assinaturas e academia: R$ 240,00
- Transporte fixo: R$ 420,00
Total de fixos: R$ 4.460,00, ou 49,6% da renda.
Parcelas ganham grupo próprio porque têm data pra acabar. O casal do exemplo tem o sofá (R$ 340,00, faltam 8 parcelas) e um notebook (R$ 285,00, faltam 5). Total: R$ 625,00, ou 6,9% da renda.
Variáveis são o que muda conforme o mês: mercado (R$ 1.400,00), comer fora e delivery (R$ 520,00), lazer e saídas (R$ 300,00) e farmácia, casa e imprevistos (R$ 350,00). Total: R$ 2.570,00, ou 28,6% da renda.
| Grupo | Valor no mês | % da renda |
|---|---|---|
| Fixos | R$ 4.460,00 | 49,6% |
| Parcelas do cartão | R$ 625,00 | 6,9% |
| Variáveis | R$ 2.570,00 | 28,6% |
| Sobra | R$ 1.345,00 | 14,9% |
Repare que R$ 5.085, ou 56,5% da renda, está decidido antes de o mês começar. Só os R$ 3.915 restantes estão em jogo, e a sobra de R$ 1.345 depende de as variáveis se comportarem.
Um cuidado que evita erro nessa soma: item pago no cartão entra na fatura. Se você lista a assinatura de R$ 60 como fixo e depois soma a fatura inteira como variável, conta duas vezes e a sobra some no papel. Anote a forma de pagamento (conta ou cartão) de cada item e conte cada um uma vez só.
Três cenários para o mesmo mês
Mês real não é o mês médio. Minha planilha mostrou que os fixos quase não mexem de um mês pra outro, enquanto as variáveis oscilam bastante. Então testamos as variáveis em três situações.
| Cenário | Variáveis | Sobra | % da renda |
|---|---|---|---|
| Pessimista (variáveis 20% acima) | R$ 3.084,00 | R$ 831,00 | 9,2% |
| Realista (como planejado) | R$ 2.570,00 | R$ 1.345,00 | 14,9% |
| Otimista (variáveis 10% abaixo) | R$ 2.313,00 | R$ 1.602,00 | 17,8% |
O pessimista é o mês do aniversário, da farmácia e do mercado extra pra receber visita. O otimista é o mês em que ninguém pediu delivery na sexta. Os dois acontecem, e o casal que só planeja o realista vive de surpresa.
A diferença entre o pior e o melhor mês é de R$ 771, e ela vem inteira dos R$ 2.570 de variáveis. Os R$ 5.085 de fixos e parcelas não mexeram um centavo. Quando um fixo sobe, como o aluguel no reajuste, o piso sobe junto: 8% sobre R$ 2.200 são R$ 176 a menos de sobra nos três cenários.
A regra prática: prometa a sobra do pior cenário
O erro clássico é combinar o aporte da meta com base no mês realista. Se o casal promete R$ 1.300 por mês pra viagem e o mês vem ruim, a sobra é R$ 831 e o buraco de R$ 469 vai pro cartão. A regra é inversa: o valor fixo da meta é a sobra do pior cenário, arredondada pra baixo. Aqui, R$ 800, ou 8,9% da renda.
Nos meses realistas, sobram R$ 545 de folga. Nos bons, R$ 802. Essa folga pode virar aporte extra, mas só depois de o mês fechar.
Dois testes ajudam. O primeiro: se o pior cenário dá sobra negativa, o problema não está no delivery. Está nos fixos ou nas parcelas, e cortar variável só adia. Não existe percentual certo de fixos pra todo casal, mas esse teste diz quando o seu passou do ponto.
O segundo: olhe a data em que as parcelas acabam. O notebook termina em 5 meses e libera R$ 285, então a sobra do pior cenário vai a R$ 1.116. O sofá termina em 8 e libera mais R$ 340, chegando a R$ 1.456. Decidam agora pra onde esse dinheiro vai. Se ninguém decide, ele escorre pras variáveis e, três meses depois, ninguém sabe onde foi.
Os valores deste texto são um exemplo pra mostrar o raciocínio. Se o orçamento do casal está apertado, se há dívida em andamento ou se a conversa envolve onde aplicar o dinheiro guardado, vale conversar com um planejador financeiro.
Como manter a conta atualizada no Nós Dois
Essa conta cabe numa planilha, e funciona bem até o mês em que um dos dois esquece de atualizar. No Nós Dois, o módulo Finanças guarda a renda fixa de cada pessoa, as despesas fixas separadas por pessoa (com a forma de pagamento, conta ou cartão, pra não duplicar com a fatura), as parcelas de cartão com a linha do tempo mês a mês e a projeção de sobra do casal. Cada despesa pode ser marcada como fixa ou variável, então os três grupos deste texto já ficam separados.
A linha do tempo das parcelas mostra em que mês cada uma acaba, e a projeção de sobra ajuda a ver o mês em que o dinheiro volta. O pior cenário é uma conta simples em cima disso: some 20% às variáveis e veja o que sobra. As Metas mostram o valor alvo, o acumulado e o aporte mensal sugerido, o que permite comparar esse aporte com os R$ 800 do pior cenário antes de prometer.
O que fazer hoje à noite
Com o app do banco de cada um aberto, dá pra fazer em cinco minutos, usando os números do mês passado:
- Some só os fixos e divida pela renda conjunta. Esse é o percentual de fixos do casal.
- Some as parcelas e anote em que mês cada uma acaba.
- Some as variáveis, acrescente 20% e tire da renda o total de fixos, parcelas e variáveis. O que sobra é o número que o casal pode prometer pra meta sem susto.
Se o resultado der negativo, não é sinal de fracasso. É o dado que faltava pra decidir o que renegociar primeiro.