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Finanças do Casal

Parcelado no cartão a dois: por que o orçamento do casal trava em 4 meses (e como destravar)

Casal que parcela cada um por si vê o orçamento travar em 4 meses. Felipe mostra a conta real, três cenários e a regra dos 10% da renda.

Felipe Marin05 de junho de 20265 min de leitura
Couple holding credit card and smartphone

Sabe quanto da renda do casal já está prometida pra parcela de cartão antes mesmo do mês começar? Em casas que ganham R$ 8.000,00 juntos, é comum ver R$ 1.000,00 a R$ 1.400,00 fechados em parcela quando a gente abre as duas faturas no mesmo dia. Isso é 12% a 17% do bolo, e quase ninguém soma antes de fechar a próxima compra.

O problema não é o parcelamento em si. O problema é que o casal parcela como duas pessoas, mas paga como uma. E quando a terceira parcela cruza com a primeira do mês seguinte, o caixa trava.

A premissa errada que estoura o caixa

O erro mais comum é cada um olhar só a própria fatura. Você fecha o tênis em 5x de R$ 80,00, ela parcela o liquidificador em 6x de R$ 90,00, e ninguém fez a soma. Cada compra parece pequena. R$ 80,00 e R$ 90,00 cabem sem pensar. O peso aparece quando essas parcelinhas se empilham.

Fizemos a conta de um casal que mandou as duas faturas pra eu olhar. Em janeiro, eles tinham R$ 480,00 de parcela combinada. Em fevereiro, R$ 640,00. Em março, R$ 890,00. Em abril, R$ 1.120,00. Em quatro meses dobrou. Renda do casal: R$ 7.500,00. A parcela passou de 6% pra 15% da renda sem ninguém perceber.

A sensação que esse casal tinha era de que o dinheiro estava sumindo. O dinheiro não sumiu, ele só foi comprometido em compras antigas que ainda não terminaram de cair.

Três cenários pra clarear: pessimista, realista, otimista

Vamos colocar três casas no papel, todas com renda de R$ 8.000,00 juntos, gastos fixos (aluguel, mercado, contas) de R$ 4.500,00, e nenhuma reserva.

Cenário pessimista: 25% da renda em parcela

Esse é o casal que parcela toda compra acima de R$ 200,00 sem combinar. Compromisso fechado: R$ 2.000,00 por mês em parcela. Sobra mensal: R$ 1.500,00 pra tudo que é variável (transporte, lazer, imprevisto, presente). Qualquer susto de R$ 800,00, tipo uma consulta veterinária ou conserto de geladeira, consome metade da sobra. Susto de R$ 1.600,00 vai pra fatura de novo, e a bola rola. Esse casal não sai do vermelho do cartão sem cortar parcela ativa.

Cenário realista: 12% da renda em parcela

Compromisso de R$ 960,00 por mês em parcela. Sobra de R$ 2.540,00 pra variável. Já dá pra absorver um imprevisto razoável. Só que, se o casal continuar parcelando no ritmo "fechei na hora", o número escala. Esse é o casal que precisa de uma trava combinada, não de mais salário.

Cenário otimista: 5% da renda em parcela

R$ 400,00 por mês em parcela. Sobra de R$ 3.100,00. Cabe imprevisto, cabe começar a guardar pra meta (viagem, casamento, reserva), cabe respirar. Não é casal mais rico que os outros dois. É casal que combinou a regra de pedir confirmação antes de fechar parcela acima de um valor combinado.

A regra prática que destrava o caixa

Se vocês ganham junto entre R$ 6.000,00 e R$ 12.000,00, segura o compromisso de parcela em 10% da renda. Acima de 15% vira armadilha. Abaixo de 5% você pode estar perdendo flexibilidade sem necessidade.

Pra chegar nesse número, três coisas precisam acontecer. Vocês precisam saber o número combinado hoje, somando as duas faturas e listando o que ainda vai cair nos próximos meses. Precisam parar de parcelar nas próximas semanas até o número baixar. E precisam definir um teto individual de parcela que dispara um combinado. A regra que funciona pra muito casal é simples: parcela acima de R$ 200,00 pede uma frase de WhatsApp antes de fechar.

O que fazer quando a parcela já está alta

Casal que abre a fatura e leva susto não sai do buraco sozinho. Tem três movimentos que ajudam, em ordem de quanto custam.

Primeiro, antecipar parcela com dinheiro que entra fora do mês (13º, restituição, bônus, freela esporádico). Quitar 4 parcelas de R$ 90,00 do liquidificador libera R$ 90,00 por mês nos próximos 4 meses. Não é mágica, é matemática direta.

Segundo, evitar o rotativo a todo custo. Se a fatura veio em R$ 2.300,00 e vocês têm R$ 1.500,00, pagar parcialmente e jogar o resto pro rotativo é a pior decisão possível, juros costumam passar de 14% ao mês. Antes disso, vale negociar parcelamento da própria fatura com o banco, que costuma cobrar bem menos.

Terceiro, desligar a fatura no automático até o número baixar. Comprar com cartão sem cadastrar a parcela em algum lugar onde os dois veem é como dirigir olhando só pelo retrovisor.

Cartão é ferramenta, não vilão

Não vou pedir pra ninguém cortar cartão. Parcelar em 3x sem juros um eletrodoméstico que vai durar 10 anos é uma decisão financeira boa. O problema é parcelar tênis, jantar fora, presente, todos no mesmo mês, sem somar. Cartão é ferramenta. Sem combinado, vira gerador de surpresa ruim.

O ponto não é o limite do cartão. É o limite que vocês combinaram. O banco aprova R$ 15.000,00 de limite. Isso não é dinheiro de vocês, é convite. Quem aceita 100% do convite acorda em abril devendo o ano inteiro.

O que fazer hoje à noite

Separa 20 minutos. Abre as duas faturas (ou os dois apps do banco). Anota numa folha: quanto cada um tem de parcela aberta, por quantos meses ainda, quanto vai cair daqui a 30, 60 e 90 dias. Soma o total mensal de parcela. Divide pela renda do casal. Esse é o seu número.

Se passar de 15%, vocês têm um plano pros próximos 60 dias: zero parcela nova, fim de papo. Se ficar entre 5% e 15%, combinem o teto individual (R$ 200,00 ou R$ 300,00 pede combinado). Abaixo de 5%, mantém a disciplina e usa a folga pra começar uma reserva.

O Nós Dois tem uma timeline de parcela de cartão mês a mês, separada por pessoa, e uma calculadora financeira que simula se uma compra parcelada cabe nos próximos 6 meses considerando o que já está cadastrado. Em vez de adivinhar se vai apertar em junho, vocês veem antes de fechar a compra.

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