Renda variável no casal: como fazer o orçamento quando um ganha por comissão ou freela
Quando um ganha fixo e o outro por comissão ou freela, o orçamento do casal precisa de outra conta. Veja como orçar pelo piso e não quebrar no mês fraco.
Faça essa conta rápida: qual foi a diferença entre o mês que mais entrou dinheiro em casa e o mês que menos entrou, nos últimos 12 meses? Se um de vocês trabalha por comissão, freela ou serviço próprio, essa diferença pode passar de R$ 3.000. E é justamente ela que faz o casal comemorar em março e apertar o cinto em julho, sem entender direito por quê.
O erro mais comum de casal com renda variável é orçar pela média. Parece lógico: se junto vocês fazem R$ 8.000 em média, planeja a vida pra R$ 8.000. O problema é que a média não paga aluguel. O aluguel vence todo dia 5, inclusive no mês em que a comissão veio pela metade. Média é um número que só existe no fim do ano, olhando pra trás. No dia 5, o que existe é o que caiu na conta.
Por que orçar pela média quebra o casal
Vou usar um casal de exemplo pra mostrar a conta inteira. Um dos dois é CLT e recebe R$ 4.000 fixos todo mês. O outro trabalha por comissão: nos meses fracos faz R$ 2.500, nos meses bons chega a R$ 6.000, e na média do ano fica em R$ 4.000. Somando, a renda do casal oscila entre R$ 6.500 e R$ 10.000, com média de R$ 8.000.
Os custos fixos do mês são estes: aluguel R$ 1.800, contas de casa R$ 900, mercado R$ 1.200, transporte R$ 600. Total de R$ 4.500 que precisa sair todo mês, chova ou faça sol na comissão. Se o casal calibrou o padrão de vida pra uma renda de R$ 8.000, ele criou gastos que confortavelmente cabem em R$ 8.000. Aí chega o mês de R$ 6.500 e sobram só R$ 2.000 pra tudo que não é fixo, incluindo aquela parcela do cartão que foi feita no mês bom. É aí que o boleto atrasa e um pergunta pro outro se já pagou.
A regra: orce pelo piso, não pela média
A conta que funciona pra renda variável tem uma virada simples. Vocês param de usar a média como base de planejamento e passam a usar o piso, ou seja, o valor mais baixo que a renda do casal alcança num mês ruim. Aqui, o piso é R$ 6.500.
Todo o padrão de vida do casal (aluguel, mercado, assinaturas, saídas fixas) tem que caber dentro de R$ 6.500. Se couber, vocês nunca vão ter um mês no vermelho, porque até o pior mês fecha positivo. O dinheiro que entra a mais nos meses bons não vira aumento de padrão de vida. Vira reserva e aporte. Essa é a diferença entre o casal que surfa a renda variável e o casal que afunda nela.
Parece que vocês vão viver com menos do que ganham. Vão mesmo, de propósito, nos meses bons. Em troca, param de viver o desespero dos meses fracos. É um câmbio que vale a pena pra quase todo casal com renda que oscila.
Três cenários pra enxergar a folga real
Com custo fixo de R$ 4.500, veja o que sobra em cada tipo de mês:
- Mês fraco (pessimista): renda de R$ 6.500, sobram R$ 2.000. Esse é o número que dita o padrão de vida. Tudo que é gasto recorrente do casal tem que caber com folga aqui dentro.
- Mês médio (realista): renda de R$ 8.000, sobram R$ 3.500. Os R$ 1.500 a mais que o mês fraco não entram no consumo. Vão direto pra reserva ou pra uma meta.
- Mês bom (otimista): renda de R$ 10.000, sobram R$ 5.500. Os R$ 3.500 acima do piso são o combustível das metas grandes: fundo de emergência, viagem, entrada de imóvel. Não são convite pra parcelar em 10 vezes.
Repare que o casal só decide o padrão de vida uma vez, olhando o cenário pessimista. Os outros dois cenários só decidem uma coisa: pra onde vai o excedente. Isso tira quase toda a briga da mesa, porque o dinheiro do mês bom já tem endereço antes de cair.
O colchão que a renda variável exige
Todo mundo fala em fundo de emergência de seis meses. Pra casal com renda variável, a conta certa costuma ser um pouco diferente, e maior. Além da reserva pra imprevisto (perder o emprego, um conserto caro), esse casal precisa de um segundo colchão menor, que eu chamo de colchão de suavização.
A função dele é simples: cobrir a diferença entre o piso e o custo fixo quando um mês vem abaixo do esperado. No nosso exemplo o piso ainda cobre os custos, então esse colchão dá folga. Mas se o custo fixo do casal fosse R$ 5.500 e o piso R$ 6.500, a margem seria magra demais, e um mês atípico já estouraria. Nesse caso, guardar de um a dois meses de custo fixo separado (aqui, entre R$ 4.500 e R$ 9.000) é o que evita recorrer ao cartão no primeiro tropeço. Não é dinheiro de investimento nem de meta. É óleo no motor pra ele não travar.
Se a oscilação de vocês for pequena, esse colchão pode ser menor. Se um dos dois é 100% comissionado ou freela, sem nenhum piso garantido, ele precisa ser mais gordo. Adapte à realidade de vocês, não à regra genérica.
O que fazer hoje à noite
Separem 15 minutos e levantem dois números do extrato dos últimos 12 meses: o mês em que menos entrou dinheiro no casal (esse é o seu piso) e a soma dos custos fixos mensais. Se o piso cobre os custos fixos com folga de pelo menos 30%, o padrão de vida de vocês está calibrado certo. Se a folga é apertada ou negativa, vocês descobriram por que os meses fracos doem tanto, e já sabem o que precisa encolher.
Pra manter isso funcionando mês a mês sem planilha travando, dá pra usar o Nós Dois. Você cadastra em Finanças a renda de cada pessoa (quem tem renda variável entra com o piso, o valor conservador do mês fraco) e as despesas fixas separadas por pessoa, e o app mostra a projeção de sobra do casal. Nos meses em que a comissão vem acima do piso, esse excedente já aparece claro pra virar aporte numa meta, em vez de sumir no consumo. E a Calculadora financeira projeta seis meses à frente antes de vocês parcelarem algo num mês bom que talvez não se repita.