Renda variável no casal: como orçar quando um dos dois ganha diferente todo mês
Um dos dois é PJ, freelancer ou autônomo? Veja por que orçar pela média quebra no mês fraco e como montar o orçamento do casal pelo piso, em três cenários.
Se uma pessoa do casal recebe R$ 2.800 num mês e R$ 7.400 no seguinte, qual desses números entra no orçamento? A resposta mais comum é “a média”. Ela parece justa, é fácil de calcular e costuma ser a que mais deixa casal no cartão de crédito no meio do semestre.
A premissa por trás dela é que o mês bom paga o mês ruim sozinho. Só que isso só acontece se alguém guardar o dinheiro do mês bom, e o mês bom costuma chegar com um conserto, uma viagem ou um jantar de comemoração esperando. O erro mais comum é orçar pela média e gastar no ritmo do que entrou.
Por que orçar pela média quebra no mês fraco
Fizemos a conta com um casal de exemplo. A é CLT e recebe R$ 4.800 líquidos todo mês. B é PJ e recebeu, nos últimos seis meses, R$ 3.200, R$ 7.400, R$ 4.100, R$ 5.900, R$ 2.800 e R$ 6.600. A soma dá R$ 30.000, ou R$ 5.000 de média por mês.
Se vocês ganham junto R$ 9.800 na média e montam o orçamento em cima desse número, o casal assume que pode gastar R$ 9.800 por mês. Aí chega o mês de R$ 2.800 de B: entram R$ 7.600, saem R$ 9.800 e faltam R$ 2.200. Nos seis meses do exemplo, três ficaram abaixo da média (R$ 3.200, R$ 4.100 e R$ 2.800), e a diferença somada foi de R$ 4.900 que precisou sair de algum lugar. Normalmente esse lugar é o limite do cartão.
Os gastos do casal de exemplo são estes: aluguel de R$ 2.400, condomínio e contas de R$ 900, mercado de R$ 1.600, transporte de R$ 600, parcelas de cartão de R$ 500, saúde e assinaturas de R$ 400. Total de essenciais: R$ 6.400 por mês. Esse é o dinheiro que precisa existir até no pior mês.
A regra do piso: orce pelo menor mês e trate o resto como excedente
Em vez da média, use o piso: o menor valor que a pessoa de renda variável recebeu nos últimos seis meses. Se vocês têm 12 meses de histórico, use o menor dos 12. No exemplo, o piso de B é R$ 2.800, e o orçamento do casal passa a ser R$ 4.800 + R$ 2.800 = R$ 7.600, não R$ 9.800. Vamos quebrar em passos:
- Ache o piso. Olhe o extrato de quem tem renda variável e anote o menor valor líquido recebido no período. Renda de PJ ou autônomo é o que sobra depois de imposto e custos, então esse é o número que vale.
- Cubra os essenciais com o piso. R$ 7.600 menos R$ 6.400 deixa R$ 1.200 por mês para lazer, gastos pessoais e imprevistos pequenos. Se a conta der negativa, o problema não é a oscilação: é que os essenciais não cabem nem no piso, e vale reduzir despesa fixa antes de qualquer outra coisa.
- Dê destino ao excedente antes de ele cair. Tudo que passar do piso é excedente. No exemplo, metade vai para uma reserva de oscilação e metade fica livre para metas e lazer. A proporção é dos dois; o que importa é combinar antes de o dinheiro entrar.
- No mês abaixo do piso, corte o lazer primeiro e mexa na reserva por último. Os R$ 1.200 de folga existem para isso.
Qual o tamanho da reserva? No exemplo, usamos dois meses de essenciais, R$ 12.800. Isso não é regra universal. Quem tem vários clientes e contratos recorrentes pode viver com um mês (R$ 6.400); quem depende de um cliente só provavelmente precisa de três (R$ 19.200). Se vocês já têm um fundo de emergência, essa reserva é uma segunda camada. Se não têm, comecem por ela, que por enquanto faz os dois papéis. Para definir o tamanho certo no caso de vocês, um planejador financeiro pode ajudar.
Três cenários para os próximos seis meses
Vamos ver o que acontece com o mesmo casal em três semestres diferentes. A tabela compara orçar pela média (R$ 9.800 por mês) e orçar pelo piso (R$ 7.600 por mês, com metade do excedente indo para a reserva).
| Cenário | B recebe em 6 meses | Orçando pela média | Orçando pelo piso |
|---|---|---|---|
| Pessimista | R$ 18.000 (média de R$ 3.000) | Faltam R$ 12.000, ou R$ 2.000 por mês | Fecha no azul e R$ 1.100 vão para a reserva |
| Realista | R$ 30.000 (média de R$ 5.000) | Fecha em zero, mas com três meses no vermelho (R$ 4.900 no total) | R$ 6.600 na reserva e R$ 6.600 livres |
| Otimista | R$ 39.000 (média de R$ 6.500) | Sobram R$ 9.000, se alguém guardar | R$ 11.100 na reserva e R$ 11.100 livres |
Pessimista
B recebe R$ 2.200, R$ 2.400, R$ 3.200, R$ 3.000, R$ 3.600 e R$ 3.600. Orçando pela média, o casal gasta como se ganhasse R$ 9.800 e acumula R$ 12.000 de rombo em seis meses. Orçando pelo piso, os dois meses abaixo de R$ 2.800 faltam R$ 600 e R$ 400, e o corte de lazer cobre sem tocar na reserva. Os quatro meses acima do piso rendem R$ 2.200 de excedente, e metade vai para a reserva.
Realista
B repete o semestre anterior. O excedente é de R$ 13.200 (R$ 30.000 menos seis vezes o piso de R$ 2.800), então R$ 6.600 vão para a reserva, mais ou menos um mês de essenciais. Nesse ritmo, de R$ 1.100 por mês, a reserva chega aos R$ 12.800 em cerca de 12 meses.
Otimista
B fecha o semestre com R$ 39.000. O excedente é de R$ 22.200: R$ 11.100 para a reserva e R$ 11.100 livres. O casal quase completa os dois meses de essenciais em um semestre.
O preço do piso é real e vale falar dele: num mês em que entram R$ 12.200 (A com R$ 4.800 e B com R$ 7.400), o teto de gastos continua em R$ 7.600. Por isso metade do excedente fica livre, e por isso o combinado precisa estar claro antes do mês bom chegar.
A regra prática: orcem pelo piso e deem destino combinado a tudo que passar dele, antes de o dinheiro cair na conta.
Quando a reserva enche: o salário fixo de quem tem renda variável
Com a reserva de R$ 12.800 completa, dá para dar um passo além. Os recebimentos de B passam a cair numa conta separada, e B tira dela um valor fixo por mês para a conta do dia a dia, como se fosse salário. No exemplo, R$ 4.000. O orçamento do casal sobe de R$ 7.600 para R$ 8.800.
Olhando o histórico de seis meses, dois meses ficariam abaixo de R$ 4.000 (R$ 3.200 e R$ 2.800), com falta de R$ 800 e R$ 1.200, ou R$ 2.000 no total, que a conta separada cobre. No semestre, B recebeu R$ 30.000 e se pagou R$ 24.000, e os R$ 6.000 restantes ficam lá para o próximo mês fraco. Revisem o valor a cada seis meses e só o aumentem quando a reserva estiver cheia. Para saber quanto separar de imposto e quanto dá para se pagar com segurança, converse com um contador.
Como registrar isso no Nós Dois
O Nós Dois entra aqui como o lugar onde a regra fica visível para os dois, não como adivinhador de renda. No módulo Finanças, cadastrem a renda de cada um. Para quem varia, cadastrem o piso (R$ 2.800 no exemplo), e a projeção de sobra do casal mostra o mês pior do jeito que ele é.
Em Metas, criem a reserva de oscilação com valor alvo de R$ 12.800 e atualizem o acumulado toda vez que o excedente cair. A meta mostra um aporte mensal sugerido, mas use como referência, já que o excedente muda todo mês. Em Acordos, registrem a regra em uma linha: “acima do piso, metade reserva e metade livre; abaixo do piso, corta o lazer primeiro”. Assim ninguém precisa lembrar de cabeça nem renegociar a regra no mês em que o dinheiro entrou.
O que fazer hoje à noite
Em 5 minutos: abram o extrato de quem tem renda variável e achem o menor valor recebido nos últimos seis meses. Somem esse piso à renda fixa do outro, subtraiam os essenciais do casal e anotem o resultado. Se for positivo, esse é o dinheiro que vocês têm no mês fraco. Se for negativo, esse é o número que precisa entrar na conversa antes de qualquer meta.