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Finanças do Casal

Salários do casal caem em datas diferentes: a conta de fluxo de caixa que evita o aperto no começo do mês

Vocês ganham bem juntos mas vivem apertados na primeira semana do mês? O problema não é o quanto entra, é quando entra. A conta de fluxo de caixa do casal.

Felipe Marin28 de junho de 20265 min de leitura
Couple looking stressed over bills at kitchen table.

Um casal que ganha R$ 8.000 por mês juntos pode passar aperto todo dia 8 e folga todo dia 22, sem gastar um centavo a mais do que o planejado. A renda está lá, as contas estão dentro do orçamento, e mesmo assim o cartão raspa o limite na primeira semana. Quando a gente olha de perto, quase nunca é problema de quanto entra. É problema de quando entra.

O erro mais comum é o casal somar os dois salários numa linha só, dividir pelas contas do mês e concluir "sobra, tá tranquilo". A planilha fecha no papel. Só que o papel não tem data. E a vida tem.

O que ninguém soma: a data que o dinheiro chega

Vou usar um casal real de exemplo, com números redondos pra ficar fácil de acompanhar. Pessoa A é CLT e ganha R$ 4.500 líquidos, que caem no dia 5. Pessoa B é PJ e ganha R$ 3.500, que entram só no dia 20, quando o cliente paga a nota. Renda do casal: R$ 8.000. Até aqui, nada de errado.

Agora as contas. Olha como elas se amontoam no começo do mês: condomínio R$ 600 vence dia 5, fatura do cartão R$ 1.400 vence dia 8, aluguel R$ 2.200 vence dia 10, luz R$ 180 e internet R$ 120 entre os dias 7 e 12. Some isso: R$ 4.500 concentrados entre o dia 5 e o dia 12. Quase tudo o que precisa ser pago no mês inteiro vence antes do dia 13.

Repara no desencontro. Até o dia 12, o casal só recebeu o salário da Pessoa A, R$ 4.500. As contas da primeira metade do mês somam R$ 4.500. Sobra zero pra mercado, transporte, farmácia e qualquer imprevisto até o dia 20, quando enfim entra o dinheiro da Pessoa B. Eles não estão gastando demais. Eles estão recebendo na hora errada.

Três cenários do mesmo casal, mesmo salário

Fiz a conta dos três jeitos que esse casal pode atravessar o mês. O dinheiro total é idêntico nos três. Muda só o fluxo.

Cenário pessimista: cada um cuida do seu

Pessoa A paga o que pode com os R$ 4.500 dela e o resto vai no cartão "pra não atrasar". A fatura do mês seguinte já nasce com R$ 1.000 a mais. No mês 2, a fatura sobe, o aperto da primeira semana aumenta, e o casal entra naquele ciclo onde o salário de hoje paga a conta de ontem. Ninguém percebe que começou, porque cada mês parece só "um mês corrido".

Cenário realista: o pisca-pisca da conta no vermelho

O casal usa o cheque especial ou o limite do cartão por uns 8 dias, todo mês, sempre na mesma janela. Parece inofensivo porque "volta a ficar positivo" depois do dia 20. Mas cheque especial cobra juro por dia usado. Oito dias de R$ 1.500 negativos, a uma taxa típica de cheque especial, custam fácil R$ 40 a R$ 70 por mês. Não quebra ninguém, mas é R$ 600 a R$ 840 por ano evaporando num problema que é só de calendário.

Cenário otimista: o casal reorganiza as datas

Aqui não muda salário nem corta gasto. Muda o vencimento das contas. O aluguel passa pra vencer dia 22, a fatura do cartão pro dia 25, e o que dá pra empurrar acompanha a entrada do dinheiro da Pessoa B. A primeira metade do mês fica com R$ 4.500 de renda contra R$ 1.500 de contas. A segunda metade segura o resto. O aperto some. Custo da mudança: alguns minutos no app do banco e da operadora.

Como fazer a conta do fluxo de vocês

Não precisa de planilha de banco de investimento. Precisa de duas listas lado a lado.

  • Lista 1, as entradas: cada salário, bônus ou renda variável, com o dia que cai. Se a Pessoa B é PJ e recebe em datas irregulares, use o pior caso, o dia mais tarde que costuma entrar.
  • Lista 2, as saídas: cada conta fixa com o dia que vence e o valor. Aluguel, condomínio, cartão, assinaturas, escola, financiamento.

Agora divida o mês em duas quinzenas e some quanto entra e quanto sai em cada uma. Se a primeira quinzena tem mais saída do que entrada, vocês têm um descompasso de fluxo, mesmo que o mês fechado dê lucro. É exatamente esse buraco que o cartão e o cheque especial preenchem cobrando juro.

A correção quase sempre é uma destas três, nessa ordem de preferência:

  1. Mudar o vencimento das contas grandes pra depois da entrada do segundo salário. Aluguel, cartão e financiamento costumam aceitar troca de data com um pedido simples. Essa é a solução mais limpa porque resolve sem mexer em mais nada.
  2. Antecipar uma reserva de fluxo, diferente do fundo de emergência. É um colchão de uma quinzena de contas, parado na conta, só pra cobrir a janela apertada sem recorrer a juro. No nosso exemplo, algo como R$ 2.000 a R$ 2.500 que ficam ali girando.
  3. Redistribuir quem paga o quê conforme a data de cada salário. A Pessoa A, que recebe dia 5, fica com as contas do começo do mês. A Pessoa B, que recebe dia 20, assume as do fim. Não é divisão proporcional automática, é só casar a conta com quem tem o dinheiro na mão naquele momento.

Por que isso vive escondido

Esse problema é traiçoeiro porque ele não aparece no fechamento do mês. No dia 30, a conta fechou, sobrou um pouco, e o casal pensa que está tudo certo. O sufoco aconteceu no meio do caminho e foi esquecido até o próximo dia 8. Sem registrar entradas e saídas com data, dá pra repetir o mesmo aperto por anos sem nunca enxergar a causa.

É aqui que ter as contas a pagar organizadas por vencimento muda o jogo. No Nós Dois, vocês cadastram cada conta com a data que vence e marcam como recorrente, então o casal vê as próximas contas agrupadas no mês e percebe na hora quando elas estão todas empilhadas na primeira semana. A parte de Finanças deixa registrar a renda fixa de cada pessoa separada, com a data de cada uma, e a calculadora financeira projeta os próximos meses pra você testar se mudar um vencimento resolve antes de mexer no banco. Dá pra ver o descompasso na tela em vez de descobrir ele no susto do limite estourado.

O que fazer hoje à noite

Senta com seu par e abram o aplicativo do banco de cada um. Anotem três coisas: o dia que cada salário cai, o dia que vence o aluguel e o dia que vence a fatura do cartão. Só isso. Se a maior conta de vocês vence antes do segundo salário entrar, vocês já acharam o aperto. Amanhã, peçam a troca da data dessa conta pra depois da segunda entrada. Leva cinco minutos e costuma ser de graça.

Fluxo de caixa não é assunto de empresa. É a diferença entre um casal que ganha bem e vive apertado e um casal que ganha o mesmo e dorme tranquilo.

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