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Decisões Grandes

Segundo filho: a conta do casal antes de decidir aumentar a família

Segundo filho custa menos que o primeiro em enxoval, mas mais no recorrente. Veja a conta real do casal em três cenários antes de decidir.

Felipe Marin03 de julho de 20266 min de leitura
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Um casal que ganha R$ 9.000 juntos e já tem um filho costuma achar que o segundo "sai mais barato". A lógica parece boa: berço já tem, roupa dá pra reaproveitar, carrinho tá guardado. Faz sentido na cabeça. Mas quando eu sento e faço a conta com casal que passou por isso, o resultado surpreende: o segundo filho pesa menos no gasto de uma vez só e pesa mais no gasto que volta todo mês. E é justamente esse gasto recorrente que aperta o orçamento por anos, não a compra do enxoval.

Então antes de a decisão virar prazo, cobrança e aquela conversa carregada no fim de semana, vale fazer o que o casal quase nunca faz: colocar número na mesa. Não pra decidir por vocês. Pra vocês decidirem sabendo o tamanho do que estão assumindo.

O erro mais comum: comparar com o custo do primeiro

O erro mais comum é usar o primeiro filho como referência de custo. "Gastamos tanto no começo, agora vai ser menos." O problema é que o gasto do primeiro filho tem duas partes bem diferentes, e elas se comportam de forma oposta no segundo.

A primeira parte é o gasto de entrada: enxoval, berço, carrinho, banheira, primeira leva de roupa. Isso realmente cai muito no segundo filho, porque boa parte se reaproveita. A segunda parte é o gasto recorrente: fralda, plano de saúde do dependente, aumento no mercado e, mais pra frente, a creche ou escola. Esse gasto não se reaproveita de forma alguma. Ele dobra. Você não paga meia creche porque já tem um filho na creche.

Quando o casal junta as duas partes numa conta só, o custo do primeiro parece assustador e o do segundo parece leve. Separando as duas, aparece a verdade: o alívio está no enxoval, e o peso está no que volta todo mês.

A conta detalhada do gasto recorrente

Vou usar um casal com renda conjunta de R$ 9.000, um filho de 3 anos e a intenção de ter o segundo. O gasto recorrente do segundo filho tem duas fases, e é importante separar.

Na fase 1, do nascimento até a volta ao trabalho (digamos, 6 meses), o gasto novo mensal fica mais ou menos assim: fralda e higiene por volta de R$ 220, plano de saúde do novo dependente por volta de R$ 280, e um aumento no mercado e itens de casa de uns R$ 150. Dá cerca de R$ 650 por mês de gasto novo recorrente. Some a isso o enxoval reaproveitado, com as compras que faltam, entre R$ 1.500 e R$ 2.500 uma única vez.

Na fase 2, quando quem cuidava volta a trabalhar, entra o item mais pesado: creche ou berçário. Numa creche particular de cidade média, isso costuma variar de R$ 900 a R$ 1.500 por mês. Com creche, o gasto novo mensal salta pra faixa de R$ 1.550 a R$ 2.150. Esse é o número que o casal precisa olhar com atenção, porque é ele que fica anos no orçamento, não o berço.

Três cenários pra sair do achismo

Casal não decide no meio termo, decide olhando o pior e o melhor caso. Por isso eu sempre monto três cenários. Todos partem do mesmo casal de R$ 9.000 e da mesma sobra atual de, digamos, R$ 1.400 por mês depois de todas as contas.

Cenário pessimista. Vocês não conseguem reaproveitar quase nada (o primeiro tem idade e sexo que não combina com o enxoval guardado), o plano de saúde do dependente sai por R$ 400, e a creche escolhida custa R$ 1.500. O gasto novo estável chega perto de R$ 2.100 por mês. Contra uma sobra de R$ 1.400, isso significa que o orçamento fica R$ 700 no vermelho todo mês assim que a creche entra. Sem ajuste de renda ou de gasto, esse cenário não fecha.

Cenário realista. Vocês reaproveitam metade do enxoval, o plano sai por R$ 280 e a creche por R$ 1.100. O gasto novo estável fica em torno de R$ 1.550. Contra os R$ 1.400 de sobra, faltam R$ 150 por mês. É um buraco pequeno, que se resolve cortando duas ou três assinaturas paradas e revisando o mercado. Fecha, mas exige ajuste consciente.

Cenário otimista. Vocês têm creche mais em conta ou apoio de avós nos primeiros tempos, reaproveitam quase tudo e o plano sai por R$ 200. O gasto novo estável fica perto de R$ 700. Contra R$ 1.400 de sobra, ainda restam R$ 700 por mês. Aqui a decisão é confortável do ponto de vista financeiro.

Repare que a diferença entre o pessimista e o otimista não está no bebê. Está em três variáveis que vocês controlam antes: quanto dá pra reaproveitar, quanto custa a creche que vocês escolherem e se existe rede de apoio nos primeiros meses. É nessas três que a conversa rende.

A regra prática que eu tiro disso

A regra é simples: o segundo filho cabe no orçamento se, no cenário realista, o gasto novo estável for menor que a sobra atual do casal. Se der negativo, não quer dizer não. Quer dizer que vocês precisam de um plano de renda ou de corte antes de o bebê chegar, e não depois, no susto.

E tem uma armadilha de tempo que quase todo casal ignora. O gasto grande da creche não entra no mês 1. Ele entra por volta do mês 6, quando quem cuidava volta a trabalhar. Isso dá uma folga inicial enganosa. O casal acha que tá tranquilo nos primeiros meses e leva um tranco quando a creche começa. O certo é já projetar o orçamento com a creche desde agora, mesmo que ela só entre daqui a meio ano, pra ela não pegar vocês desprevenidos.

Vale lembrar que valores de plano de saúde, creche e auxílio variam demais por cidade e por idade. Pra decisões que envolvem benefício, licença ou imposto, o certo é confirmar com um contador ou com o RH da empresa. Aqui a ideia é vocês entrarem na conversa com a ordem de grandeza certa, não com o número exato.

O que fazer hoje à noite

Separem 20 minutos e montem uma linha só: peguem a sobra média do casal dos últimos três meses e, embaixo, listem o gasto novo estável do cenário realista (fralda, plano do dependente, aumento de mercado e a creche que vocês provavelmente escolheriam). Subtraiam. Esse número, positivo ou negativo, é o ponto de partida honesto da decisão. Se der negativo, anotem de quanto é o buraco e de onde ele sairia (corte de assinatura, renda extra, revisão de mercado) antes de qualquer outra conversa.

Depois, registrem a decisão e os combinados num lugar que os dois enxergam. No Nós Dois, a Calculadora financeira projeta os próximos meses já contando com as parcelas e metas que vocês têm, então dá pra ver a creche entrando lá no mês 6 sem susto. Vocês criam uma Meta pro colchão do enxoval e dos primeiros meses, deixam a projeção de sobra do casal atualizada em Finanças e registram em Decisões quem vai pausar ou reduzir a jornada quando o bebê chegar, com o combinado ficando salvo em Acordos. Assim a conta que vocês fizeram hoje não vira uma memória vaga que ninguém lembra em quatro meses.

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