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Vida em Casal

"Tanto faz" do parceiro: quando a resposta curta esconde uma briga maior

Quando o "tanto faz" do parceiro vira rotina, raramente é tranquilidade. Veja o que costuma estar por trás e o que fazer antes de virar ressentimento.

Bia Tavares25 de junho de 20265 min de leitura
Couple taking a selfie while cooking in kitchen

Era uma terça à noite, eu com o celular na mão decidindo o jantar. "Pede pizza ou faço macarrão?", perguntei. "Tanto faz." Cinco minutos depois: "Filme ou série hoje?" "Tanto faz." No sábado, quando perguntei se a gente ia na casa da minha mãe ou ficava em casa, veio de novo: "Tanto faz, você que sabe." Foi aí que eu percebi que não era preguiça de escolher pizza.

No começo eu até gostava. Quem nunca quis um parceiro que não cria caso por nada? Mas depois de uns meses morando juntos eu entendi que carregar todas as escolhas, das pequenas às grandes, cansa de um jeito que ninguém te avisa. E que o "tanto faz" repetido quase nunca significa o que parece.

O que o "tanto faz" geralmente quer dizer (e não é tranquilidade)

O problema que ninguém te conta é que "tanto faz" virou uma palavra-coringa pra várias coisas bem diferentes. E elas pedem respostas diferentes.

Na maioria das vezes que aconteceu aqui em casa, era uma destas:

  • "Eu já decidi tanta coisa hoje que não tenho energia pra mais essa." A fadiga de decidir é real. Quem escolhe o que faz no trabalho o dia todo chega em casa sem querer escolher nem o molho.
  • "Eu tenho uma preferência, mas não quero o estresse de defender ela." Esse é o perigoso. A pessoa quer macarrão, mas acha que pizza vai gerar discussão, então fala "tanto faz" e depois fica meio sem graça comendo.
  • "Eu sinceramente não ligo pra isso." Esse existe e é legítimo. Tem gente que realmente não tem opinião sobre cor de toalha.
  • "Eu desisti de opinar porque minha opinião nunca conta mesmo." Esse é o sinal vermelho de verdade. Quando vira esse, o "tanto faz" é mágoa disfarçada de paz.

O detalhe é que você não consegue distinguir essas quatro só pelo tom de voz. Os dois primeiros e o último parecem iguais numa terça cansada. Por isso a gente errava tanto.

Por que isso pesa mais em quem mora junto

Namorando à distância ou cada um na sua casa, "tanto faz" custa pouco. Você escolhe o restaurante e pronto. Morando junto, o número de microdecisões explode: o que comprar no mercado, qual marca de café, quem liga pro síndico, se troca a lâmpada hoje ou no fim de semana, se aceita o convite do casamento do primo.

Se uma pessoa decide quase tudo, ela não está só "sendo prática". Ela está carregando a carga mental do casal sozinha. E quem carrega isso normalmente não percebe na hora, percebe três meses depois, numa noite boba, quando explode por causa de uma louça na pia que não tinha nada a ver.

Se vocês já moraram juntos, vão entender: a briga quase nunca é sobre o assunto da briga.

Quatro coisas que funcionaram aqui em casa

1. Trocar "tanto faz" por "me dá duas opções"

A regra mais simples e a que mais mudou as coisas. Quando eu ouço "tanto faz", eu não decido sozinha. Eu devolvo: "Me dá duas opções e eu escolho entre elas." Isso tira a pessoa do modo passivo sem obrigar ela a decidir tudo. Spoiler: na maioria das vezes, na hora de dar as duas opções, aparece uma preferência que estava escondida.

2. Separar o que é "tanto faz" de verdade do que não é

A gente combinou uma coisa meio besta que ajudou muito: existe decisão de R$ 20 e existe decisão de R$ 2.000. Pra decisão de R$ 20 (jantar, filme, marca do detergente), "tanto faz" está liberado e quem perguntou decide, sem culpa. Pra decisão grande (mudar de apê, gasto alto, viagem, convite que mexe com a família), "tanto faz" não vale. Os dois opinam, mesmo cansados.

Esse combinado a gente até registrou pra não esquecer. Tem um app que a gente usa pra organizar a vida a dois, o Nós Dois, e ele tem um espaço de Acordos (eles chamam de constituição do casal) onde você anota esses combinados com data. O nosso ficou tipo: "decisão acima de R$ 500 a gente decide junto, abaixo disso quem está resolvendo decide". Parece bobo escrever, mas quando bate a dúvida "isso aqui é grande ou pequeno?", está lá, decidido num momento calmo.

3. Perguntar de um jeito que não dá pra responder "tanto faz"

"O que você quer jantar?" é um convite pro "tanto faz". "Você prefere o macarrão de ontem ou pizza?" é mais difícil de fugir. Pergunta fechada, com opção, puxa decisão. Pergunta aberta, no fim de um dia cansativo, puxa "sei lá". Mudei o jeito de perguntar antes de cobrar o jeito dele de responder.

4. Marcar um momento pras decisões maiores, longe do cansaço

A gente percebeu que pedir opinião sobre coisa importante às 22h de uma quinta era pedir pra ouvir "tanto faz". Então as decisões que pesam ficaram pro domingo de manhã, com café, sem pressa. Quando a cabeça está descansada, o "tanto faz" some quase sozinho. Decisão grande merece horário de cabeça boa, não sobra de energia.

O que NÃO fazer

Não transforme cada "tanto faz" em interrogatório. Se toda vez que a pessoa fala "tanto faz" ela ouve "mas por quê? você nunca opina? eu decido tudo aqui?", ela vai parar de responder qualquer coisa, e aí você troca um problema por um pior. A diferença entre o "tanto faz" de cansaço e o de mágoa não se resolve no calor da hora. Se você desconfia que virou o quarto tipo, aquele de "minha opinião não conta", isso é conversa de domingo de manhã, com calma, e não cobrança no meio do corredor. Se a coisa estiver pesada de verdade, conversar com um profissional ajuda mais que qualquer regra de blog.

Seu próximo passo de 5 minutos

Hoje, na próxima vez que ouvir "tanto faz", faça só uma coisa: responda "me dá duas opções". Não explique a teoria, não faça discurso. Só teste a frase uma vez e veja o que aparece. Na maioria dos casais, na hora de escolher entre duas, a preferência real sai. E se vocês quiserem ir além, separem cinco minutos pra escrever um combinado simples: até quanto cada um decide sozinho, e de quanto pra cima decidem juntos. É a regra que evita metade das brigas de "você que decidiu, não eu".

Esse tipo de combinado é fácil de falar e fácil de esquecer. Por isso vale deixar registrado num lugar que os dois veem, com data, em vez de no "a gente tinha combinado, lembra?".

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