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Vida em Casal

"Tanto faz" do parceiro: por que essa resposta é um sinal vermelho no casal

Quando o "tanto faz" do parceiro vira padrão, não é confiança, é fuga da conversa. Veja o que tá por trás e como destravar a decisão sem virar briga.

Bia Tavares11 de julho de 20265 min de leitura
Couple looking at tablet together in armchair

Era uma terça à noite, a gente tentando decidir a cor da parede da sala. Eu tinha três amostras de tinta na mão, do bege ao verde, e mostrei uma por uma. Ele, sem tirar o olho do celular, soltou: "tanto faz, escolhe você". Na hora pareceu até gentil. Um presente, sabe? Tipo "confio no seu gosto, vai fundo".

Só que aquilo virou um padrão. Cor da parede: tanto faz. Onde jantar no sábado: tanto faz. Se a gente ia no aniversário da minha prima ou ficava em casa: tanto faz. Num certo ponto eu parei e percebi que não era confiança nenhuma. Era ele saindo da conversa antes dela começar. E, spoiler, eu estava fazendo a mesma coisa em outros assuntos sem perceber.

O que "tanto faz" quer dizer de verdade

Existe o "tanto faz" honesto. Aquele que é real indiferença: dá na mesma comer pizza ou hambúrguer, e a pessoa realmente não liga. Esse é saudável. Ninguém precisa ter opinião forte sobre tudo, e casal que decide cada detalhe junto cansa em duas semanas.

O problema é o outro "tanto faz". O que é desistência disfarçada de tranquilidade. A pessoa liga, sim, mas já decidiu que opinar não vale o esforço. Ou porque acha que vai dar discussão, ou porque as últimas vezes que opinou a opinião dela não pesou em nada, ou porque tá exausta de decidir. Aí ela terceiriza a decisão e, de quebra, terceiriza a responsabilidade se der errado.

Você percebe qual dos dois é pelo que vem depois. Se a parede fica bege e três semanas depois aparece um "eu queria que fosse verde", aquele "tanto faz" não era tanto faz coisa nenhuma. Era um voto que a pessoa preferiu não registrar.

Por que a gente para de opinar (e nem percebe)

No nosso primeiro ano, eu virei a pessoa que decidia quase tudo da casa. Não porque ele fosse desligado, mas porque toda vez que ele opinava e eu discordava, virava um vaivém cansativo. Ele aprendeu que era mais fácil deixar comigo. E eu, sem querer, aprendei a gostar do controle e a reclamar dele ao mesmo tempo.

Esse é o ciclo clássico: um decide, o outro se cala, o que se cala acumula um ressentimento silencioso, e o que decide acumula uma carga que ninguém pediu. Os dois saem perdendo. A conta chega numa terça qualquer, quando um "tanto faz" leva a uma briga que não tem nada a ver com a cor da parede.

Você já parou pra pensar em quantas decisões dessa semana foram "tanto faz" que na verdade eram "não quero brigar agora"?

O que funciona pra destravar a conversa

A gente não resolveu isso com uma conversa profunda de duas horas. Resolveu com uns ajustes pequenos e meio chatos no começo. Vou dividir os que pegaram.

1. Perguntar "tanto faz mesmo ou você tá cansado de decidir?"

Parece bobo, mas mudou tudo. Quando ele dizia "tanto faz", eu passei a fazer essa pergunta específica. Metade das vezes era tanto faz de verdade, e a gente seguia rápido. A outra metade destravava um "na real eu preferia" que ficaria engasgado. A pergunta dá permissão pra pessoa opinar sem parecer que tá comprando briga.

2. Separar decisão grande de decisão pequena

Onde pedir comida hoje não merece reunião. Mas gastar R$ 3.000,00 numa reforma, ou decidir se a gente passa o feriado com a família dele ou a minha, merece os dois presentes na conversa. A gente combinou um valor de corte: acima de um certo número, ou em qualquer coisa que mexe com a rotina dos dois, "tanto faz" não conta como resposta. A pessoa precisa dar uma opinião de verdade, nem que seja "não sei, me dá um dia pra pensar".

3. Registrar quem decidiu o quê

Essa foi a virada mais prática. A gente passou a anotar as decisões grandes num lugar só, com quem bateu o martelo: eu, ele, ou os dois juntos. Parece frio, mas resolveu o jogo do "eu nunca concordei com isso". Se a decisão de trocar de plano de internet foi dos dois e ficou registrada, ninguém pode fingir depois que foi imposição. E se foi de um só, fica claro de quem era a bola.

4. Dar prazo pro "tanto faz"

Quando ele realmente não tinha opinião formada, em vez de me empurrar a decisão inteira, ele passou a dizer "me dá até amanhã". Aí no dia seguinte a gente decidia junto. Isso tirou a pressão de decidir na hora e tirou de mim o peso de ser sempre a última palavra.

5. Transformar o padrão em combinado escrito

Depois de repetir esses ajustes umas dez vezes, a gente escreveu como regra: decisão acima de um valor combinado é sempre a dois, e ninguém usa "tanto faz" pra fugir. Ter isso escrito num acordo do casal, e não só na memória, faz a gente cobrar sem parecer chatice. É o combinado falando, não eu de novo puxando o assunto.

O que não fazer

Não transforme cada "tanto faz" num interrogatório. Se você começar a psicanalisar a escolha do jantar toda noite, a pessoa vai fugir mais ainda, e com razão. O objetivo não é obrigar o outro a ter opinião forte sobre tudo. É separar o que é indiferença de verdade do que é cansaço, medo de briga ou ressentimento acumulado. E, importante, se o padrão do "tanto faz" vem com afastamento em várias áreas da relação, isso é conversa pra um profissional, não pra um post de blog. Aqui a gente fala do operacional do dia a dia, não do emocional profundo.

Um teste de 5 minutos pra essa semana

Topa um teste? Nos próximos dias, toda vez que um de vocês soltar um "tanto faz", o outro faz uma única pergunta: "tanto faz de verdade ou você não tá afim de decidir agora?". Só isso. Não precisa resolver nada na hora, só nomear qual dos dois é.

E, pra fechar, pega as duas ou três decisões maiores que estão em aberto na casa de vocês agora (o feriado, uma compra, uma mudança de rotina) e escreve num lugar que os dois enxergam: qual é a decisão, quem vai bater o martelo e até quando. Tirar isso da cabeça e colocar num lugar compartilhado é o que impede o "tanto faz" de virar o "eu nunca concordei" três semanas depois.

É pra isso que a gente usa o módulo de Decisões e a Constituição do casal no Nós Dois: registrar a decisão, marcar quem decidiu (um, o outro ou os dois) e deixar os combinados escritos num lugar que os dois abrem. Quando a regra tá escrita, fica mais fácil cobrar sem ser você puxando o assunto pela décima vez.

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