Tanto faz: quando a indiferença do parceiro é um sinal vermelho no casal
Um 'tanto faz' de vez em quando é normal. Repetido toda semana, costuma esconder outra coisa. Veja como identificar e o que fazer antes de virar mágoa.
Numa sexta à noite, perguntei pro meu noivo se ele queria pizza ou comida japonesa pro jantar. Ele respondeu "tanto faz", sem tirar os olhos do celular. Pedi pizza. Meia hora depois, ele comeu duas fatias emburrado e falou que estava com vontade de comida japonesa desde de manhã.
Não foi a única vez. Nas semanas seguintes, o "tanto faz" apareceu pra escolher o filme de sábado, pra decidir se a gente ia no aniversário da prima dele, pra cor da parede que a gente ia pintar. No começo eu achava que ele simplesmente não tinha preferência sobre nada. Só fui perceber que tinha outra coisa ali quando ele reclamou, dias depois, de decisões que ele mesmo tinha deixado passar em branco.
O que o "tanto faz" costuma esconder
Quase ninguém fala "tanto faz" porque realmente não tem opinião nenhuma. Na prática, a frase costuma significar uma de três coisas: cansaço de decidir mais uma coisa naquele dia, vontade de evitar um assunto que pode virar discussão, ou a sensação de que a opinião dele não vai pesar de qualquer jeito, então nem vale o esforço de dizer.
O problema é que nenhuma dessas três coisas aparece na frase. O que fica registrado é só a resposta neutra, e quem pergunta assume que aquilo é consentimento de verdade. Resultado: a pessoa que perguntou vira responsável pela escolha, inclusive pelo arrependimento que vem depois. Se vocês já moraram juntos, vão entender: é o tipo de coisa pequena que não parece problema até acontecer pela quinta vez na mesma semana.
Ofereça duas opções em vez de uma pergunta aberta
A gente quase brigou por causa da parede da sala. Eu perguntava "qual cor você quer" e a resposta sempre era "tanto faz, escolhe você". Troquei a pergunta: "prefere um cinza mais claro ou um bege quente?". Na hora ele respondeu "o cinza", sem pensar duas vezes.
Pergunta aberta demais pede um esforço que a pessoa cansada não quer fazer naquele momento. Pergunta fechada com duas opções boas tira esse esforço sem tirar a decisão da mão dela. Vale pro jantar, pro filme, pro passeio do fim de semana. Se as duas opções forem ruins de verdade, tudo bem ele dizer "nenhuma das duas", mas aí pelo menos você sabe que a indiferença era real.
Pergunte o motivo antes de assumir que é desprezo
Nem todo "tanto faz" pede o mesmo tratamento. Pra escolher entre dois restaurantes, pode ser que realmente não importe. Pra decidir se vocês vão morar perto da família dele ou da sua, "tanto faz" quase sempre é outra coisa por trás, tipo evitar um assunto que ele sabe que vai gerar discordância.
Uma pergunta direta resolve mais rápido do que ficar adivinhando: "isso aqui realmente não importa pra você ou você não quer entrar nesse assunto agora?". Topa um teste? Da próxima vez que ouvir a frase numa decisão que não é trivial, pergunta assim. Spoiler: na maioria das vezes a resposta não é "não importa".
Revezar quem decide muda o padrão
Se toda pergunta cai em cima da mesma pessoa, essa pessoa vira quem decide o jantar, o passeio, a cor da parede, o presente de aniversário da sogra e ainda leva a culpa quando algo dá errado. A gente resolveu revezar: numa semana eu escolho o cardápio, na outra é ele, sem perguntar antes. Ele para de dizer "tanto faz" porque a decisão já chegou pronta e ele só precisa avisar se tiver algum problema.
Funciona melhor do que insistir pra pessoa "se importar mais". Ninguém muda de jeito porque foi cobrado. Mas todo mundo consegue assumir a vez dele numa escala.
Registre as decisões grandes pra não reabrir do zero
O "tanto faz" mais perigoso não é o do jantar, é o das decisões grandes. Casamento no civil ou com festa, quando sair do aluguel, se um dos dois vai aceitar uma proposta em outra cidade. Quando a resposta é "tanto faz, decide você" numa dessas, é comum ela voltar meses depois como discordância forte, como se nunca tivesse sido conversada.
Uma coisa que poucos casais fazem é anotar como cada decisão grande foi tomada, quem decidiu o quê e por qual motivo. Não precisa ser formal. A gente começou a registrar isso no módulo de Decisões do Nós Dois, exatamente pra não depender da memória de quem lembra melhor. Quando o assunto volta à tona, dá pra checar o que já foi combinado em vez de discutir tudo de novo.
O que não fazer quando ouvir "tanto faz" de novo
Não transforme toda resposta neutra em motivo de briga. Às vezes a pessoa realmente não tem preferência, e forçar uma opinião só cria irritação onde não tinha nada. O problema não é a frase isolada, é o padrão repetido em decisões que deveriam ser conversadas a dois. Preste atenção na frequência antes de reagir.
Da próxima vez que ouvir "tanto faz" essa semana, tenta isso: em vez de aceitar e decidir sozinho, ofereça duas opções concretas em quinze segundos. Se a resposta continuar vaga numa decisão que importa, pergunta o motivo antes de seguir. E se for uma decisão grande, anote o que foi combinado assim que ela sair da conversa, pra não depender da memória de ninguém depois.