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Finanças do Casal

Como dividir aluguel quando vocês ganham salários diferentes: a conta justa do casal

Dividir o aluguel meio a meio quando um ganha mais distorce o orçamento de quem ganha menos. Veja a conta proporcional do casal em três cenários reais.

Felipe Marin03 de junho de 20265 min de leitura
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A premissa errada que quebra o orçamento do casal

Imagina um casal que ganha junto R$ 9.000 por mês. Ele faz R$ 6.000 como CLT, ela faz R$ 3.000 como freelancer. O aluguel do apartamento é R$ 2.400. Quando chega o dia 5, eles dividem meio a meio: R$ 1.200 cada.

Parece justo. Não é.

R$ 1.200 representa 20% do salário dele e 40% do salário dela. Ela paga, em percentual, o dobro do esforço dele. No fim do ano, ela guarda menos, gasta menos consigo mesma e provavelmente sente o famoso aperto que ele não sente. Sem ninguém ser vilão da história, só matemática mal feita.

O erro mais comum é confundir igualdade com justiça. Dividir 50% pra cada um é igualdade matemática. Quando os salários são diferentes, a conta que faz sentido é a proporcional.

A conta proporcional em três passos

Não tem mistério. Pega papel ou abre uma calculadora.

Passo 1: some a renda líquida do casal. No exemplo acima, R$ 6.000 + R$ 3.000 = R$ 9.000.

Passo 2: calcule o percentual que cada um representa da renda total. Ele faz 6.000 dividido por 9.000, ou seja, 66,7%. Ela faz 3.000 dividido por 9.000, ou seja, 33,3%.

Passo 3: aplique esse percentual no aluguel (ou em qualquer despesa compartilhada). Ele paga dois terços de R$ 2.400, que dá R$ 1.600,00. Ela paga um terço de R$ 2.400, que dá R$ 800,00.

Agora os dois pagam o mesmo peso do salário: 26,7%. Sobram pra ela R$ 2.200 do salário pra cobrir o resto da vida. Antes sobravam R$ 1.800. A diferença é viver com folga ou viver no limite, no mesmo apartamento.

Três cenários reais de divisão proporcional

Fizemos a conta com três casais típicos. Em todos, o aluguel mais condomínio mais IPTU somam R$ 2.500 por mês.

Cenário 1, salários parecidos. Ele ganha R$ 5.500, ela ganha R$ 4.500. Renda total R$ 10.000. Ele cobre 55%, ou R$ 1.375,00. Ela cobre 45%, ou R$ 1.125,00. A diferença é pequena, R$ 250,00 por mês, mas significa que cada um devolve pra própria vida 22,5% do salário em moradia. Sem distorção.

Cenário 2, diferença média. Ele ganha R$ 7.000, ela ganha R$ 3.000. Renda total R$ 10.000. Ele cobre 70%, ou R$ 1.750,00. Ela cobre 30%, ou R$ 750,00. No meio a meio (R$ 1.250,00 cada), ela pagaria 41,7% do salário só de moradia. Inviável.

Cenário 3, diferença grande. Um ganha R$ 10.000, o outro ganha R$ 2.500 (por exemplo, durante uma transição de carreira, mestrado, ou tempo entre empregos). Renda total R$ 12.500. Ele cobre 80%, ou R$ 2.000,00. Ela cobre 20%, ou R$ 500,00. Aqui a conversa muda de figura: por que não 100% do aluguel pra quem ganha mais, enquanto o outro investe ou monta reserva? Volto nisso agora.

Quando a diferença passa de 70/30

Acima dessa faixa, a regra proporcional pura começa a doer pra quem ganha menos por outra razão: o restante do salário não cobre as despesas pessoais.

Pega o cenário 3. Ela ganha R$ 2.500,00. Cobre R$ 500,00 de moradia. Sobram R$ 2.000,00 pra mercado (a parte dela), transporte, plano de saúde, conta de celular, roupa, lazer, parcela própria. Em cidade grande, esse valor não fecha.

Nesses casos, três opções funcionam melhor que a proporcional pura:

  1. Quem ganha mais cobre 100% do fixo grande (aluguel, condomínio, conta de luz). Quem ganha menos cobre o variável menor (mercado pequeno, streaming, gás) e usa o restante pra montar reserva ou estudar.
  2. Divisão por sobra livre. Calcula quanto sobra pra cada um depois de pagar despesas pessoais essenciais (transporte do trabalho, plano de saúde individual). Aplica o percentual sobre a sobra, não sobre o bruto.
  3. Modelo potinho comum. Cada um deposita um valor combinado no começo do mês na conta de despesas do casal. Pode ser proporcional, pode ser fixo. O restante do salário fica com cada um, sem prestação de contas.

Nenhum dos três é melhor que o outro. O melhor é o que vocês conseguem manter por 12 meses sem brigar.

O que entra na divisão e o que fica de fora

Outro erro comum: jogar tudo no mesmo balaio. Dá ruim. Separe em três grupos.

Despesas do casal (entram na divisão proporcional): aluguel, condomínio, IPTU, conta de luz, água, gás, internet, mercado básico, produto de limpeza, manutenção da casa.

Despesas pessoais (cada um paga a sua): celular, transporte do trabalho, plano de saúde individual, academia, roupa, hobby, presente de amigo de cada um.

Despesas grandes não recorrentes (decisão conjunta): viagem, móvel novo, eletrodoméstico, presente pra família. Aqui o casal decide caso a caso: meio a meio, proporcional ou um cobre tudo e o próximo é por conta do outro.

Essa separação evita a discussão eterna do tipo "mas a sua academia também é da casa" ou "comprei o perfume sozinho, por que entra na conta compartilhada?".

O que fazer hoje à noite

Vai gastar 15 minutos. Não precisa de planilha cansada.

  1. Anote a renda líquida de cada um (o que cai na conta depois de imposto).
  2. Some os dois valores. Calcule o percentual de cada um na renda total.
  3. Liste as 5 maiores despesas fixas do casal (aluguel, condomínio, luz, internet, mercado mensal).
  4. Aplique o percentual em cada despesa. Compare com o que vocês pagam hoje.
  5. Combine quando a nova divisão começa: dia 1º do próximo mês.

Registra esse combinado em algum lugar que os dois consultam. Não no WhatsApp, que some no scroll do grupo da família. Num lugar fixo, que vocês abrem quando entrar uma despesa nova.

No Nós Dois, vocês cadastram a renda fixa de cada pessoa, lançam cada despesa fixa separada com o dono certo (conta ou cartão) e veem a projeção de sobra mensal do casal. A seção Acordos guarda o combinado da divisão por escrito: "aluguel 70/30 proporcional, mercado dividido por consumo, viagem cada um cobre uma vez por ano". Quando a renda mudar, vocês reabrem o cálculo e atualizam o acordo, sem ter que reconstruir a planilha. E as contas a pagar ficam no mesmo lugar, com vencimento e quem pagou marcado, pra ninguém perguntar mais "você pagou a luz?" no dia 12.

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