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Mudança e Apartamento

Vistoria do apê alugado: o que anotar antes de assinar (e não pagar na saída)

A vistoria do apê alugado que ninguém leva a sério é a mesma que vira cobrança na saída. O que registrar antes de assinar pra não pagar por defeito que já estava lá.

Diogo Lemos07 de julho de 20265 min de leitura
gray concrete walls with broken floor

Na primeira mudança que fiz com a Marcela, a gente assinou a vistoria de entrada em pé, no corredor, com o corretor segurando a prancheta e falando "tá tudo certo, é só assinar". Estava tudo certo mesmo. Pra ele. Dois anos depois, na saída, apareceu uma cobrança de R$ 1.400 por pintura, um box de vidro "trincado" e uma porta de armário empenada que, juro, já estava daquele jeito no dia 1. Não tínhamos como provar. Pagamos.

Depois dessa, virei chato de vistoria. Não por implicância, por sistema. A vistoria não é burocracia de imobiliária. É o único documento que decide, lá na frente, quem paga a conta do desgaste. Quem anota bem na entrada não briga na saída.

Por que a vistoria padrão não te protege

O problema não é falta de esforço. É que o laudo que a imobiliária entrega foi feito pra proteger o proprietário, não vocês. Ele costuma vir com frases genéricas: "pintura em bom estado", "esquadrias em funcionamento", "pisos sem avarias". Bom estado segundo quem? Sem avaria comparado com o quê?

Esse tipo de descrição vaga funciona contra o inquilino. Na saída, qualquer marca de móvel na parede vira "dano", qualquer respingo vira "repintura obrigatória". E como o laudo de entrada não registrou o estado real com detalhe, a palavra que vale é a de quem tem o laudo mais específico. Normalmente, não é a sua.

Spoiler: o casal que assina a vistoria em 10 minutos no dia da entrega das chaves está assinando um cheque em branco. A vistoria boa leva de uma a duas horas e é feita com o apê vazio, antes de qualquer caixa entrar.

O critério que uso: se não dá pra provar, não conta

Depois de errar feio, meu critério ficou simples. Só considero "registrado" o que eu consigo provar meses depois. Anotação genérica não prova nada. O que prova é: descrição específica no laudo, foto com data e um combinado de quem confere o quê. Os três juntos.

Isso muda o jeito de fazer a vistoria. Você para de dar um "ok geral" cômodo por cômodo e passa a caçar defeito ativamente. A pergunta não é "tá bom?", é "o que vão tentar me cobrar na saída se eu não anotar agora?".

O que ninguém anota (e depois cobra)

A lista de parede, piso e pintura todo mundo faz. O que escapa é o resto. Essa é a parte que virou cobrança na minha vida, então vai a lista honesta do que a gente esquece:

  • Torneiras e registros pingando. Abra e feche cada um. Um registro que já vem duro vira "você forçou" na saída.
  • Descarga e caixa acoplada. Dê descarga, veja se veda. Vazamento silencioso de caixa acoplada é conta de água alta e briga garantida.
  • Tomadas e interruptores. Teste um por um com um carregador. Tomada que não funciona precisa constar, senão o eletricista entra na sua conta.
  • Box, espelhos e vidros. Procure trinca, lasca na borda, mancha permanente. Vidro é caro e é o primeiro a virar cobrança.
  • Portas de armário embutido. Abra e feche todas. Empeno, dobradiça solta, puxador faltando. Foi exatamente o que me pegaram.
  • Rejunte e silicone de box e pia. Mofo e rejunte solto que já existiam.
  • Chaves e controles. Confirme quantas chaves de cada porta, controle de portão, tag de garagem. Faltou na saída, cobram a cópia.
  • Ar-condicionado, aquecedor, chuveiro. Ligue. Se tem, tem que funcionar. Anote a marca e se está gelando/esquentando.
  • Sinais de infiltração no teto e nos cantos. Foto de perto de qualquer mancha amarelada. Isso te protege inclusive de ser culpado por um problema estrutural do prédio.

Regra prática: fotografe cada defeito de longe (pra mostrar onde é) e de perto (pra mostrar o que é). E fotografe também o que está bom, porque prova de bom estado também serve pra você.

Onde eu guardo isso pra achar dois anos depois

Aqui está o pulo do gato que quase ninguém faz: registrar não adianta se você não acha na hora H. As fotos somem no meio de 4 mil imagens do celular. O PDF do laudo vira um anexo perdido no e-mail. Na saída, você tem duas horas pra achar prova de dois anos atrás e não acha.

Testei guardar em pasta de nuvem, funciona pra guardar, falha pra encontrar. O que funciona pra gente hoje é ter um lugar único que o casal abre junto. No Nós Dois, a gente usa dois módulos pra isso e cada um faz uma coisa:

  • Documentos pra guardar o contrato de locação e o laudo de vistoria assinado, com data. É o guarda-chuva legal, fica junto do RG, seguro e o resto da papelada do casal.
  • Manutenção pra registrar item por item o que já estava com defeito na entrada: "torneira da cozinha pingando", "porta do armário do quarto empenada", "mancha no teto do banheiro". Cada registro fica por pessoa e vocês reveem a lista inteira antes de devolver as chaves.

Vou ser honesto sobre o que falta, porque odeio quando um app promete demais: hoje o módulo Manutenção não anexa a foto dentro de cada item. A foto continua no celular. O que ele resolve é a lista viva e compartilhada, aquilo que na saída te faz lembrar dos 14 defeitos que você anotou na entrada e teria esquecido de 11. A foto você organiza numa pasta com o mesmo nome. Não é perfeito, mas é o que sobrevive ao mês 12, que é o meu teste pra qualquer ferramenta.

Tem mais uma coisa que a gente aprendeu a combinar antes: quem confere o quê. Sozinho, você cansa no terceiro cômodo e começa a dar "ok" no automático. Em dupla, um lê a lista em voz alta e o outro testa e fotografa. Esse combinado a gente deixa registrado em Constituição, junto dos outros acordos da casa, pra não virar discussão de "achei que era você que ia olhar o banheiro".

Vistoria de saída: o mesmo cuidado, sentido contrário

O erro final é relaxar na saída. Você limpou tudo, entregou as chaves aliviado e foi embora. Duas semanas depois vem a cobrança e você não tem foto do estado em que deixou.

Faça a vistoria de saída com o apê já vazio e limpo, com a mesma câmera na mão. Fotografe cada cômodo entregue. Se possível, marque a data em que devolveu as chaves e por escrito com quem. Sua prova de saída vale tanto quanto a de entrada.

O próximo passo de 5 minutos

Se vocês estão prestes a assinar ou acabaram de pegar as chaves, faça só isso hoje: abra as fotos que você já tirou do apê vazio e escreva, numa nota do celular ou onde for, uma lista de 5 a 10 defeitos que você lembra de ter visto. Torneira, armário, tomada, o que for. Isso leva 5 minutos e já é infinitamente melhor que a assinatura no corredor. Depois, com calma, você transfere pra um lugar que o casal abre junto e não perde de vista.

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